JOVEM NEGRO LEVA TIRO DA PM NO PRÉ-CARNAVAL DE CAETITÉ
NOTA DE REPÚDIO DO MOVIMENTO NEGRO
UNIFICADO – CAETITÉ- BA
Na madrugada do dia 26 de janeiro de 2020, na
Avenida Santana de Caetité-Ba, durante a 33ª Lavagem da Esquina do Padre, o
jovem negro, Jailton Crispim Arruda, popularmente conhecido como Dai Black, foi
alvejado com dois tiros na perna, disparados por um Policial Militar, sob o
absurdo argumento de que teria tentado tomar a arma de um PM. Os disparos
efetuados atingiram, ainda, uma foliona que estava próxima, numa ação
imprudente que expôs toda uma multidão ao risco de vida.
Testemunhas alegam que Dai Black, estava
dançando durante a festa com um grupo de amigos e, após a PM esbarrar nele, foi
surpreendido com uma abordagem truculenta que originou os disparos do PM.
Baleado, Dai Black foi algemado e obrigado a caminhar com extrema dificuldade
(às vezes arrastado) do local da ação até o ponto de apoio da polícia, na Praça
da Catedral.
Durante o percurso, ele sofreu
violência física (socos e pontapés), moral e psicológica, além da humilhação
pública, pois, os foliões sem o conhecimento dos fatos, aplaudiram a ação
desastrosa da PM.
Na sequência da fatídica abordagem,
Dai Black foi jogado no camburão e levado à UPA, onde ficou até o amanhecer do
dia internado e algemado, sob a custódia ilegal da PM.
Este tipo de atuação faz parte de uma
grande estrutura e institucionalização do que se compreende como racismo, visto
que Dai Black é conhecido pela educação e carisma por todos de Caetité, o que
leva a crer que não é apenas um tiro na perna de Dai Black, mas sim uma ação
que constitui agressão à comunidade negra.
Tal afirmativa se sustenta no fato de
que pesquisas e dados científicos comprovam que 75,5% das vítimas de homicídio
no País, são negras. (Atlas da Violência: estudo publicado no dia 05/06/2019 do
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de
Segurança Pública). Desta forma, a taxa de mortes chega a 43,1 por 100 mil
habitantes e, para não negros, a taxa é de 16%.
A sociedade não pode assistir a tudo
isso em silêncio e, nós do Movimento Negro Unificado de Caetité, não vamos nos
calar diante deste absurdo, que silenciosamente grita o racismo explícito,
caracterizado na ação absurda do PM. É questionável tal conduta, uma vez que
existe normas de abordagem policial a serem cumpridas, às quais nem sempre
funcionam para os jovens negros, tendo em vista a violência e a bala que chegam
sempre antes, como se nossas vidas nada valessem.
Numa alusão ao abolicionista Castro
Alves, sabemos que o camburão tem sangue de Navio Negreiro, reconhecemos isso
como condição pertencente a um processo histórico de colonização e escravidão
que insiste em marginalizar e assassinar os corpos dos negros e dos
periféricos.
As autoridades, os sites e meios de
comunicação locais, não se pronuciaram durante todo o domingo (apenas um ou
outro de maneira tímida) e até o momento, não há posicionamento de nenhuma
entidade ou nota oficial emitida pelo Comando da PM, nem tampouco da
organização da festa. Os responsáveis por esta ação desastrada, trágica,
infeliz e extremamente racista, bem como os responsáveis pelo evento devem uma
resposta para a sociedade caetiteense, sobretudo, ao povo preto e ao povo da
periferia urgentemente. Exigimos que esse silêncio seja quebrado e que seja
feita justiça. Sabemos que a força da chibata está com quem usa farda e é braço
direito do Estado. Não iremos nos calar como ora fazem as autoridades e os
meios de comunicação local, estamos organizados e realizaremos um amplo debate
e mobilizações em Caetité.
*VIDAS NEGRAS IMPORTAM!!!!
PAREM DE VIOLENTAR A POPULAÇÃO NEGRA!!!!*
Assinam essa carta: Levante Popular da
Juventude; Coletivo Feminista Marias – Alto Sertão; Associação Brasileira de
Pesquisadores Negros; Diretório Central dos estudantes da UNEB; Juventude
Manifesta; Consulta Popular; PSOL; Coletivo Feminista Obá Elekó/ VCA; Movimento
Estudantil de Educação Física – UNEB XII, Abayomi Organização de Mulheres
Negras; Rede de Mulheres Negras da Bahia; Coletivo de Mulheres Negras Luíza
Bairros. APN’s, MCOESO.

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